Quem são os Patiseiros? A história dos moradores do Vale do Pati
Os Patiseiros são os moradores tradicionais do Vale do Pati, na Chapada Diamantina (Bahia). Descendem das famílias que chegaram ao vale a partir de 1899, fugindo da seca, e vivem ali há mais de 120 anos. Hoje formam uma comunidade tradicional de fecho de pasto reconhecida oficialmente — e são eles que recebem quem faz a travessia, nas próprias casas onde a história aconteceu.
Quando você atravessa o Vale do Pati, não está cruzando um lugar vazio. Está passando por trilhas que foram abertas por famílias reais, dormindo em casas de gente que nasceu ali, comendo o que a terra deles ainda dá. Esta é, em resumo, a história de quem são os Patiseiros — contada por eles mesmos, no documento que a própria comunidade organizou.
A seca que fundou o vale (1899)
A história começa com uma seca. Em 1899, um homem chamado Gasparino Vicente dos Anjos, morador do Vale do Capão, subiu para a mata fechada do Pati de Cima sem ter mais o que comer. Cavou a terra, encontrou solo úmido meio metro abaixo e plantou maniva de mandioca. Ela pegou. Ele trouxe a família — e, conta a memória da comunidade, "começou a chover".
A notícia correu pela região: no Pati dava para plantar, e não tinha seca. Outras famílias vieram. Foram abrindo as trilhas — as mesmas que os viajantes percorrem hoje — do Pati de Cima até a Igrejinha e, depois, até o Cachoeirão. O vale que hoje é considerado um dos melhores trekkings do mundo nasceu como refúgio de quem não tinha para onde ir.
O tempo do café: quando o Pati virou "São Paulinho"
Com a segunda grande seca, em 1932, ainda mais gente chegou — e o Pati já produzia café em abundância. O vale ganhou tanta fama de lugar próspero que era apelidado de "São Paulinho": gente de toda a região vinha catar café ali.
Do alto da Rampa — o mirante que hoje é a primeira grande vista da travessia — dava para ver as moças de vestidos coloridos apanhando café e cantando roda lá embaixo. Quatro engenhos movidos pela força dos rios, os "rodões d'água", beneficiavam todo o café dentro do próprio vale, que saía em sacas no lombo de burro. No auge, a memória da comunidade registra 279 famílias morando no Pati.
O êxodo: a conta que o governo cobrou
A virada veio de fora. Em 1967, o Plano de Erradicação das Lavouras Cafeeiras do governo federal chegou ao Pati. Anos depois, na década de 1970, os moradores foram surpreendidos por uma notificação exigindo a devolução do dinheiro do plano. Sem experiência com bancos e burocracia, e sem perspectiva, muitas famílias acabaram deixando o vale.
Em 1985 veio outro baque: a criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Com o boato de que seriam removidos, moradores que nasceram ali e nunca tinham visto uma cidade grande passaram noites sem dormir. Das 279 famílias, restaram cerca de dez. Mas os que ficaram, ficaram por um motivo — e ele está na frase que a comunidade faz questão de repetir:
"Não foi terra grilada, nem foi roubada — foi comprada com suor." — relato dos moradores do Vale do Pati, no documento da própria comunidade
Quando o turismo virou amizade (por volta de 1988)
No fim dos anos 1980, os primeiros visitantes começaram a aparecer, seguindo as antigas trilhas dos tropeiros do café. Eles pediam aos moradores: "Posso ir?" — e iam junto. Começaram a pernoitar nas casas. Como diz a própria comunidade sobre aquele começo: "não era turismo, era amizade".
A primeira casa a receber visitantes foi a do Sr. Eduardo — não por acaso, mas porque ele tocava sanfona e contava histórias. O turismo do Pati nasceu da música e da hospitalidade, antes de virar sustento. E virou: sendo o vale um Parque Nacional, onde não se pode desmatar nem fazer grandes roças, receber quem chega se tornou a principal fonte de renda de quem ficou.
É uma inversão bonita. Antes, o patizeiro descia dias de trilha para vender a banana na feira de Andaraí. Hoje, como resume um dos moradores: "para quem quer comer uma banana no godó, tem que vir aqui no Vale do Pati". Antes o Pati ia até o mundo; agora o mundo vem até o Pati.
Os Patiseiros hoje
A comunidade conquistou o reconhecimento oficial como comunidade tradicional de fecho de pasto — o desfecho vitorioso de uma longa luta pelo direito de existir no próprio território. Em 2024, os moradores organizaram e publicaram, com apoio de instituições parceiras, o documento que conta essa história pela primeira vez com a voz de quem viveu — "mostrada da forma deles, como eles querem".
Hoje o vale tem cerca de 17 casas de famílias nativas, das quais 13 recebem viajantes. E há um detalhe que transforma a visita: o livro com essa história fica nas casas do Vale, disponível para quem quiser ler. Você pode conhecer a história do Pati sentado na casa dos próprios protagonistas dela.
Um último mistério, que os próprios moradores acham graça em não saber explicar: ninguém sabe ao certo por que o vale se chama Pati. Nunca existiu uma família com esse sobrenome — as pessoas é que eram chamadas "de Pati" por morarem ali. O terceiro melhor trekking do mundo tem um nome que nem quem nasceu nele sabe de onde veio.
Como é ser recebido nas casas: dormir e comer no vale
Quando você faz a travessia, não dorme em barraca nem em pousada: dorme nas casas dessas famílias, e come o que elas preparam. É essa a parte que transforma o Pati de "trilha bonita" em experiência de verdade — você é hóspede de quem abriu esses caminhos.
Onde você dorme: as casas de apoio têm quartos coletivos, separados entre feminino e masculino, e há opção de quarto privado para casais. Têm banheiro com chuveiro — de água gelada, é bom já saber, porque não existe água quente dentro do vale. O Pati não tem energia elétrica convencional; a luz vem de energia solar, que também permite recarregar o celular e as baterias. Faz parte: você está dentro de uma comunidade real, não de um hotel com infraestrutura de cidade.
O que você come: café da manhã e jantar fartos, feitos no fogão a lenha, com o que a roça e a comunidade oferecem. Não é comida de restaurante — é comida de casa, do jeito que se cozinha ali há gerações. Para muita gente, sentar à mesa numa dessas casas, depois de um dia de trilha, é a lembrança mais forte que se leva do Pati. A alimentação completa está incluída na travessia.
Quer conhecer o Vale do Pati recebido por quem faz parte dessa história?
🟢 Falar no WhatsAppNa travessia, você se hospeda nas casas das famílias nativas do vale.
Veja também: roteiros de 3, 4 ou 5 dias, o que levar na mochila e onde fica e como chegar.
Os fatos desta página vêm do documento organizado pela ASCOPA (Associação Comunitária do Pati), "Ancestralidade patizeira: do passado ao presente" (2024), a Cartografia Social feita pela própria comunidade. Reescrito com respeito e com autorização de quem convive com as famílias do vale há mais de duas décadas.